11/08/2008

Muros da vergonha

Turistas deixando o portão oeste do Templo do Céu neste mês provavelmente não perceberão a casa de Song Wei do outro lado da rua. E nem há chances de que os espectadores ao longo da rota olímpica de ciclismo parem no restaurante de Sun Ruonan, ali perto.

Song e Sun vivem na área central de Pequim, em vizinhanças que foram devastadas para fazer a cidade parecer limpa e organizada para as Olimpíadas. Ambos permaneceram firmes, apesar da pressão para que se mudassem. Eles passarão as Olimpíadas atrás de muros ou telas erguidos para manter suas propriedades fora da visão pública.

Um véu de redes plásticas verdes agora cobre o restaurante de Sun. A casa de Song e diversas lojas que ele aluga a trabalhadores migrantes foram cercadas por um muro de tijolos com três metros de altura, parte de uma campanha de embelezamento de última hora. As autoridades consideraram seu pequeno bloco de comércio uma afronta aos olhos.

"Por que um muro ao nosso redor?"

“Todos nós apoiamos as Olimpíadas”, diz Song, 42, um nativo de Pequim que aluga salas a duas famílias migrantes que abriram lojas. “Mas por que estão construindo um muro ao nosso redor?”

Um aviso misterioso apareceu ao lado das lojas em 17 de julho, impresso em papel branco e assinado por ninguém. Trazia o texto: “Visando manter a exigência do governo de arrumar o ambiente olímpico, um muro deverá ser construído ao redor do número 93 da Estrada Tianqiao Sul.” Na manhã seguinte, diversos pedreiros apareceram com uma escolta policial.

Agora o muro esconde um pequeno vale de empreendedorismo, onde muitas famílias migrantes vendem meias, mochilas, calças, macarrão e kebabs de shish cozidos em sopa apimentada. Uma família atrás do muro vende sorvete, refrigerantes e bebidas geladas usando uma geladeira com rodas.

Zhao Fengxia, um vizinho proprietário de três lojas, diz acreditar que os oficiais estavam usando o embelezamento olímpico como pretexto para estrangular seu negócio e pressioná-los para saírem.

Feng Pan, 18, que ajuda seus pais na administração de uma loja de macarrão, aceitou a visão oficial com menos críticas. “Nós influenciamos a aparência da cidade”, disse ela.

Muitas cidades buscaram refazer sua imagem ao receber eventos globais como as Olimpíadas. Pequim está fazendo uma das maquiagens mais caras do mundo usando a técnica de camuflagem. Ao longo do eixo central que vai do Portão Yongdingmen ao norte até a Torre do Tambor (Drum Tower), as autoridades estão fazendo seu melhor para dar uma nova cara à cidade, ou pelo menos para esconder tudo que tenha uma cara velha. Pequim gastou US$130 milhões para restaurar edifícios, muitos deles templos no eixo de oito quilômetros, de acordo com o bureau de relíquias culturais da cidade.

O Estádio Olímpico foi construído numa extensão norte do eixo tradicional – um aceno à importância histórica do evento. Nos caminhos que levam ao estádio, foram montados bloqueios com flores, grama e árvores.

O mais difícil

A parte sul do eixo provou ser mais difícil de embelezar. Ela corta vizinhanças densamente populosas ao sul da Praça Tiananmen, onde moram muitos dos migrantes e trabalhadores pobres da cidade. Para esconder vizinhanças criadas durante o re-desenvolvimento dos anos recentes, ou qualquer outra coisa que o governo considere feio, oficiais levantaram muros.

Agora Song, sua esposa e sua filha de oito anos vivem atrás de um deles. Eles vivem aqui desde 1994, diz Song, alugando suas lojas a famílias das províncias. Eles moram em acomodações próximas dali. O quarto dos Songs quase não comporta a cama de casal onde eles dormem com a filha. Por trás do quarto está uma área devastada, com ervas daninhas e ruínas, que costumava ser uma favela. O local de Song sobreviveu enquanto a cidade demoliu a vizinhança historicamente pobre de Tianqiao e a transformou com shoppings, ruas mais largas e subdivisões. A situação de Song é familiar na agitação desta cidade mutante. Os desenvolvedores querem expulsá-lo, mas ele espera por mais dinheiro.

Em 17 de julho, muitos trabalhadores deixaram uma pilha de tijolos vermelhos na calçada. Na manhã seguinte eles retornaram, usando sandálias e chapéus de palha, acompanhados pela polícia e oficiais locais. Eles começaram a trabalhar empilhando tijolos às 8:30 da manhã. O muro não subiu com facilidade. Após alguns breves empurrões, uma pequena demonstração se desenrolou. Song pendurou três bandeiras chinesas nos troncos das árvores – e três bandeiras brancas decoradas com o logotipo das Olimpíadas 2008. Um trabalhador migrante subiu numa escada e afixou um cartaz dizendo “Precisamos de direitos humanos!” Para assustar os oficiais, Song trouxe um grande cartaz com uma famosa fotografia de Mao sentado em uma cadeira de vime. “Ele pensou que Mao poderia fazer alguma coisa por nós”, brincou Zhao, o vizinho, que estava lá naquela manhã.

Os pedreiros, eles próprios trabalhadores migrantes, trabalharam sob forte chuva. À medida que uma multidão de passantes se formava, a polícia amarrou uma fita policial ao redor dos choupos. Uma dúzia de homens ficou em volta, mantendo a situação sob controle. “Uma pessoa gritou, ‘Então vocês não permitirão que as pessoas se alimentem!’” Zhao lembrou. “Muitas famílias ganham a vida com essas lojas – mesmo que sejam pequenas.”

Gu Dahua, 47, um fazendeiro da província de Anhui, veio com sua esposa há três anos. Eles vendem pentes, espelhos, meias e outros pequenos bens de consumo todos com preço de 1 yuan, ou cerca de 15 centavos de dólar. O muro não foi bom para os negócios. “Agora ficou difícil”, diz Gu.

Dois quarteirões ao norte, outro estabelecimento ao longo do eixo foi fechado para os jogos. Os ancestrais de Sun Ruonan abriram uma padaria no eixo sul da Praça Tiananmen na década de 1840. A cidade tentou demoli-la no ano passado, para plantar grama e arbustos ornamentais ao lado da rota olímpica de ciclismo. Sun e sua irmã mais nova, Ruoyu, uma cidadã australiana, se recusaram a sair. “Não quero realmente me opor ao governo”, diz Sun, caindo em lágrimas. “Para aqueles de nós que atravessaram a Revolução Cultural, esta vida é o paraíso.”

A cidade a pressionou para sair. Uma noite no ano passado, uma escavadeira invadiu o prédio. Vizinhos são pagos para vigiá-la, e eles notificam a polícia quando ela recebe visitas. Sun diz que oficiais tentaram forçar seu médico a parar de atendê-la. Seu prédio está caindo aos pedaços. O governo, pelo bem das aparências, colocou redes verdes em volta dele. Quando a corrida dos ciclistas passar por sua casa neste mês, os espectadores dificilmente irão notar os cartazes, implorando por ajuda, pregados à porta. “Estou pendurada aqui como um prego”, diz ela.

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