27/07/2010

Coisas que a gente não quer dizer

Faz tempo que venho evitando falar sobre os absurdos que andam acontecendo com seres humanos, que matam, violentam, torturam e nos chocam. Como esse é um blog de entretenimento, e não de falar coisa muito séria, achei que não seria de bom tom falar sobre o caso Eliza Samudio. Mas essa semana recebi um texto que, com a devida permissão da autora, posto aqui para nossa reflexão. Obrigada, Déa, por compartilhar!

Coração de Mãe
Monstros de verdade
Déa Januzzi
dea.januzzi@uai.com.br

Quando criança meu filho já desejou a Lua. Queria levá-la para sua caixa de brinquedos, inebriado pela luz redonda no céu de abril. Nos dois quarteirões que faltavam para chegar em casa, ele e a Lua andaram juntos, encantados um com o outro. Impossibilitada de atender a tamanho pedido, eu lhe disse que ele veio ao mundo para encher meu universo de luas e estrelas. Neste dia, ele dormiu desejando a Lua e não viu quando, da janela entreaberta, alguns raios passaram pela cortina e chegaram para iluminar seu sono. Nós, pais, na verdade, só podemos dar o possível!

Ele já quis ser arquiteto, jornalista, professor, mas falta pouco para ser um cientista social. Conversa muito, é inquieto e reivindica, tem os olhos e os cabelos rebeldes, mas não gosta de ir a shopping, não usa roupas de marca e tem horror ao caos urbano, mas também está sem rumo neste cenário de desolação.

O que mais impressiona hoje é a herança perversa que os adultos estão deixando para as crianças e os jovens. Outro dia, uma amiga disse que ficou aterrorizada com a pergunta da filha de 8 anos. 'Mãe, o que eu tenho de fazer para não arrumar um marido que um dia vai me matar?' A mesma menina, inteligente, atenta a tudo e a todos, certa vez se dirigiu à amiga da mesma idade e disse: 'Vamos brincar de Isabella Nardoni?'. E começou a jogar as bonecas pela janela. Atormentadas pelos monstros modernos, como o goleiro Bruno ou o casal Nardoni, as crianças de hoje não têm mais medo de bicho-papão, de Frankenstein ou do boi da cara preta. Os monstros não são mais de mentirinha.

Expostas à crueldade mostrada na televisão, as crianças têm exemplos reais e não mais tremem de medo dos bichos de sete cabeças dos livros infantis e das canções de ninar. O lobo mau hoje é um goleiro de sucesso, que tinha tudo para dar certo na vida e também ser um bom exemplo para as crianças que precisam de um amanhã para acreditar.

Bicho-papão hoje são os próprios pais de classe média alta, como os Nardoni, que deveriam proteger os filhos, mas os jogam pelas janelas dos apartamentos de luxo. Sob o signo do horror, vivem as crianças deste país. Ninguém mais pergunta para elas: 'O que você vai ser quando crescer?'. Na sala de casa, as crianças assistem, com os pais, a noticiários de degola, de corpo de mulheres jogados para cães, de crianças voando pelas janelas dos apartamentos.

Os monstros modernos invadem as casas, estilhaçam os sentimentos, abortam nossa fé, pisam em cima dos bons exemplos. Ninguém está pedindo que adorem Maomé, que fiquem orando em templos evangélicos, ou que expulsem demônios imaginários e rezem terços e ave-marias infindáveis nas igrejas deste país. Ninguém precisa se debruçar sobre a Bíblia e decorar salmos e cânticos. Mas é preciso ter fé em algo maior. É preciso acreditar, ter motivos para acordar e continuar vivendo sem tanta insanidade.

Como criar filhos num mundo em que os monstros fazem parte do nosso dia a dia? Quando uma bela jovem, moradora do Sion, médica, é suspeita de fazer parte do bando da degola, enquanto deveria estar salvando vidas? O que os adultos prometeram e não cumpriram? Como os pais podem mostrar que há um mundo mais justo, menos cruel? O que fazer para que os jovens abracem projetos de vida e não de morte?

Ninguém sabe a resposta, porque não há receita nem modo de fazer. É preciso repetir e repetir que filho não vem com manual de instrução, que educar, segundo Freud, é uma missão impossível, mas cadê o afeto? Cadê o colo, o abraço, a alegria? Criança não precisa viver dentro de shoppings aprendendo a consumir. Ou só em frente ao computador, dando mais valor ao mundo virtual. Não, criança precisa é de brincar, seja lá do que for. No mundo da fantasia, os heróis não podem virar vilões. Os maus sempre acabam punidos no fim da história, mesmo que a vida não seja tão justa.

No mundo de uma criança, os heróis têm superpoderes, o dom de mudar o fim da história, e mesmo o lobo mau se denuncia com os olhos e a boca enorme. Mas onde estão os heróis das novas gerações, que se transformam em vilões de uma hora para outra? O bem e o mal estão de mãos dadas, trocam de cenário em instantes. Uma hora vestem a pele de cordeiro e na outra de lobo mau, que é capaz de engolir nossas esperanças com sua boca enorme. Um lobo mau que tem fome e sede insaciáveis de poder e de riqueza. Livrem-nos dos monstros reais, porque ninguém aguenta mais tanto lobo mau. Deixem que eles fiquem trancados na noite escura de suas vidas.

Suplementos - Bem Viver

9 comentários:

vanny marques disse...

Glória, você fez muito bem de colocar esse texto maravilhoso, que dá voz ao nó que temos na garganta. Muito obrigada.

Sel disse...

Oi Glória, olá Déa!

Infelizmente é o mundo q estamos vivendo... não há respostas para essas perguntas... concordo q falta muito amor, muita atenção, mais tempo, mais brincadeiras próprias de criança, bem menos TV, CP, video-game... o problema é q os pais hoje estão tão preocupados com o trabalho, em acumular bens e dar tudo aos filhos q esquecem de olhar prá eles...

Que sorte a minha: meus pais me deixaram (e pagaram) meu estudo e seus exemplos.

Cada dia mais, e a cada desgraça q vemos ou ouvimos, ficamos sem palavras.

Abraços. Inté.

Eva - disse...

Glória, excelente depoimento sobre os circo dos horrores que está armado na sociedade brasileira e...não só! Em relação às crianças,especialmente às meninas, o que mais me deixa chocada é a adultização e a erotização precoce que as próprias mães estimulam, com estojos de maquilagem, roupas inadequadas, saltos altos, idas a salões de beleza. Nem as festinhas de aniversário são em modelo infantil. Não! Tem banda, danças de adultos e, o mais absurdo: depois de ser cantado o clássico "Parabéns pra você", emendam com uma musiquinha que é de arripiar, pois indaga com que a criancinha "irá casar", seguindo-se uma série de outras indagações que incluem até os "chifres" que ela irá levar! É de pasmar! Morro e não me acostumo!

Patricia Daltro disse...

Nossa, que texto bom! Obrigada por compartilhar. Sou mãe de um pequeno de 4 anos e no ápice do caso Bruno, tomei a decisão de não assistir mais jornais quando ele estiver por perto, não sei se fiz certo ou errado, mas foi o que meu coração de mãe mandou que fizesse, no mais, tento explicar sobre o bem e o mal, pessoas ruims e pessoas boas e tentar protegê-lo sempre, pelo menos um pouco, desse mundo tão insano.

Arti disse...

Vamos dizer que tipo assim...

O mundo tá doidão!

TDM disse...

Glória, bendita sejas por postar isto.As pessoas calam e no silêncio dos bons os maus se esbaldam.
Só queria acrescentar uma pergnta:
Por que a maioria dos que morrem assassinados são mulheres e crianças ?
bjk e muita luz procê

Mamis disse...

Glória, o que está acontecendo com a humanidade? Que medo! bjs

Elis (Coisas de Lily) disse...

Pára o mundo e vamos todos descer. A coisa tá feia!! Só Deus mesmo.

Glorinha, por onde andas?? Tá sumidinha.
Hoje estaremos comentando Ídolos lá no mue blog. Aparece por lá!
beijos!

vanny marques disse...

Glória, sumida outra vez??????????
Gostaria que você falasse sobre o papel dos advogados de defesa, escondendo seus clientes suspeitos de crimes bárbaros e atacando impiedosamente a justiça representada pelos delegados. O que está acontecendo? Suspeito não deveria ser obrigado a falar e esclarecer todos os seus passos com as devidas comprovações? Como justificar um bando de desocupados e dependentes do dinheiro do goleiro, como cidadãos inocentes? A coisa esta ficando muito feia...