13/10/2008

B a bá b e bé b i bi otonico Fontoura!

Ontem assisti na TV um comercial do Biotônico Fontoura e pensei: gente, isso ainda existe? Fui rapidamente levada de volta à minha infância. Acredito que muita gente tenha passado pela tortura de ter que tomar essa gororoba quando criança.

Pelo menos, na minha casa, não podia faltar. Sempre antes das refeições, lá vinha minha mãe com aquela colher e-nor-me cheinha daquele líquido escuro e amargoso.

Vou contar aqui um segredinho pra vocês: para me convencer a tomar aquele treco, minha mãe me enganava e dizia que era um remédio pra deixar a gente de olhos puxadinhos. Sim!! Eu queria ter olhos de japonesa, vê se pode!! Então eu tomava e todos os dias ia conferir o resultado no espelho e reclamava com a minha santa mãe, que o remédio não estava fazendo efeito. E sabe o que ela me dizia? "Tá vendo? Você não toma o remédio direito, por isso que está demorando a fazer seus olhos ficarem puxadinhos!" Ah, como eu era tolinha...ehehe

Mas vamos à história do tal elixir:

Alguns farmacêuticos, cujas farmácias se tornaram tradicionais e obtiveram o maior sucesso, enveredaram para a fabricação em série de medicamentos, dando origem às primeiras indústrias farmacêuticas nacionais. Um dos casos mais notáveis foi o de Cândido Fontoura. Formado em 1905, numa das primeiras turmas do curso de farmácia de São Paulo, Cândido Fontoura usou sua curiosidade de pesquisador ao criar um tônico para a sua esposa, que tinha saúde bastante frágil. A fórmula foi tão benéfica, que após três meses, outras pessoas também começaram a procurar aquele tônico, que entre outras coisas estimulava o apetite. O tônico foi batizado de Biotônico Fontoura, por sugestão de Monteiro Lobato, que era seu amigo.

Algum tempo depois, o farmacêutico montaria o Laboratório Fontoura & Serpe para a produção em série desse produto.

Naquela época, eram comuns as mortes de parturientes pela febre puerperal e de um número excessivo de crianças com menos de um ano. Mas a grave endemia que atacava a população era a ancilostomíase, tão bem caracterizada por Monteiro Lobato no "Almanaque do Jeca tatu", editado pelo Laboratório Fontoura.
O biotônico fornecia o ferro necessário à reconstrução da hemoglobina devorada pelo Ancilostomus duodenali, produtor do mal da terra ou amarelão. O almanaque ensinava em palavras simples, como ocorria o ciclo do mal da terra e através do Jeca Tatu explicava que os ovos do ancilóstomo eram depositados no solo junto as fezes, pois naqueles tempos, as touceiras de bananas serviam de instalaçòes sanitárias. Uma vez no solo, os ovos produziam as larvas que penetravam nas solas dos pés, já que mais de 90% da população no campo andava descalça. As larvas caiam na circulação, desenvolviam-se, fixavam-se nas paredes intestinais, onde parasitavam a hemoglobina do sangue e botavam ovos que eram expelidos pelas fezes, iniciando novamente o ciclo.
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O personagem Jeca Tatu era um pobre caboclo, que tinha uma família magra, pálida e triste que transformava-se em saudável ao experimentar o Biotônico Fontoura. Em abril de 2001 a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou no Diário Oficial uma portaria determinando que as empresas produtoras de fortificantes retirassem o etanol (álcool etílico) das fórmulas de seus produtos, o que acabou acarretando na proibição da venda do Biotônico Fontoura.

Não sei se o álcool foi retirado da fórmula, mas o fato é que ontem o comercial estava lá, fazendo propaganda do remédio, para a tortura das nossas crianças.

Um comentário:

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