07/10/2007

O clip vermelho

Essa história é meio antiguinha, começou em 2005. Mas como só tomei conhecimento dela a pouco tempo, talvez outras pessoas também nunca tenham lido ou ouvido contar.

A história é a seguinte: era um dia chato em Montreal, dois anos atrás. O jovem MacDonald estava desocupado em casa, no minúsculo apartamento que dividia com uma namorada (ocupada no trabalho). MacDonald estava refletindo sobre os inconvenientes de viver de aluguel, e como seria bom ter uma casa própria, quando repentinamente lhe ocorreu uma inspiração: e se alguém aceitasse trocar uma casa por um clipe de papel vermelho? Não de uma vez, mas em uma série de trocas, como em um jogo que ele costumava jogar quando menino.

E eis que, em apenas 14 trocas, depois de trocar tesouros como um furgão de mudanças e uma tarde com Alice Cooper, e de enfrentar uma tempestade de interesse da mídia, a cidadezinha rural de Kipling (973 habitantes), nas pradarias do oeste do Canadá, decidiu comprar uma casa e dá-la a MacDonald. A publicidade talvez sirva para ajudar a vida a melhorar, acreditam os moradores de Kipling.

O jovem guerreiro dos imóveis se recusa a revelar o preço da casa, e os anciãos locais o apóiam nessa decisão. Por sorte, a casa é uma verdadeira casa, embora o teto da cozinha tenha um vazamento. A primeira impressão de quem vê a casa de MacDonald é que talvez ele devesse ter começado suas trocas por um grampeador; talvez o resultado final fosse melhor. É uma casinha branca, quadradinha, com um pequeno jardim frontal; fica em 503 Main Street e não é difícil localizá-la. É a casa com um clipe de papel vermelho gigante no gramado.

A verdade é que MacDonald não é exatamente um folgado, no sentido clássico do termo. Depois de crescer na região de Vancouver, ele bancou seus estudos na Universidade da Colúmbia Britânica trabalhando em plataformas de petróleo e plantando árvores. Mas desejava um emprego divertido.

Ele conheceu Dominique Dupuis, sua namorada na época da façanha e hoje sua mulher, em 2002, e os dois viviam juntos no elegante bairro de Le Plateau, em Montreal, pagando US$ 600 ao mês por um apartamento de 45 metros quadrados. MacDonald tentou escrever sobre turismo e ocasionalmente trabalhava para o pai, e Dupuis trabalhava em tempo parcial como nutricionista enquanto estudava. Ela pagava o aluguel. Em 12 de julho de 2005, MacDonald começou sua empreitada ao veicular no site Craigslist uma foto do clipe de papel vermelho, oferecido para uma troca por qualquer coisa.

As primeiras trocas (o clipe por uma caneta, a caneta por uma maçaneta de porta artesanal de cerâmica, a maçaneta por um fogareiro de acampamento e o fogareiro por um gerador de mil watts) resultaram em 20 a 30 visitas diárias ao site de MacDonald. Ele mandou um e-mail ao site boingboing.net contando sobre seu plano e, no dia em que sua mensagem foi postada, o site dele recebeu mais de 100 mil visitas. Oito meses mais tarde, depois que ele trocou uma tarde em um estúdio de gravação por um ano de aluguel em um apartamento em Phoenix, jornalistas ligavam para ele toda hora.

O último item em sua lista de trocas, uma ponta com direito a diálogo em um filme produzido por Corbin Bernsen (oferecida por Bernsen em troca de um globo de neve com a imagem da banda Kiss) resultou na oferta da casa em Kipling. MacDonald e Dupuis receberam as chaves em uma cerimônia realizada em 12 de julho de 2006, em Kipling. Entre os convidados estavam muitas das pessoas com as quais ele fez suas trocas. No mesmo dia, MacDonald pediu emprestado o clipe de papel vermelho com o qual a história começou (hoje propriedade de Corinna Haight), o dobrou em forma de aliança e usou para pedir Dupuis em casamento. A noiva usou o "anel" por um dia antes de devolvê-lo à proprietária.

Muito romântico. Mas é difícil imaginar que um casal viajado como esse viva de fato em uma cidade com menos de mil moradores. MacDonald revela que eles passaram três meses na casa desde que a receberam, depois de um inverno na Ásia e de diversas viagens a Los Angeles para negociar um contrato de cinema. E os dois ainda têm seu apartamento em Montreal.

Em conversa com os pais de MacDonald, durante um jantar comunal em Kipling, a mãe dele confidencia que ela e o marido chamam a paciente e aventurosa Dupuis de "Santa Dominique", e também admite que vivia preocupada com o filho. Ele sempre quis ser escritor, mas parecia acreditar que as editoras é que iriam a ele. MacDonald aparentemente teve uma outra idéia para um livro, antes desta, mas quando tentou vendê-la, em Nova York, o editor não demonstrou interesse. Por isso, ele tirou um clipe vermelho do bolso da camisa e disse que o trocaria por uma casa; isso atraiu atenção.

O quê? MacDonald planejava um livro desde o começo? Ele não revelou esse detalhe ao narrar sua jornada heróica. Questionado a respeito, ele demonstra nervosismo. Diz que tinha outra idéia antes do clipe. Um agente se interessou, mas não muito. Nada foi assinado. Mais tarde, ele assinou com outra pessoa. "Se isso não tivesse funcionado, eu teria tentado outra coisa", afirma. "Eu não queria ser uma dessas pessoas que perdem anos trabalhando para um jornal".

Ainda que a repórter tenha saído de Kipling remoendo a diferença entre aventura por aventura e aventura para escrever um livro, Kyle MacDonald queria se divertir e viver de suas idéias, e conseguiu. Enquanto outras pessoas de sua idade estão atoladas no pagamento de hipotecas, ele conseguiu uma casa de três dormitórios e dois banheiros sem gastar um centavo.

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