21/05/2009

Pequenos gênios esquecidos


Quem já passou dos 40, certamente se lembra da menina Narjara Turetta. Narjara estreou como atriz ainda criança, na novela "Papai Coração", da Tupi, em 1976. Mas, aos três anos e meio já havia feito comerciais e, aos cinco, figuração no infantil Vila Sésamo. Teve seu auge quando, aos 12 anos, interpretou a Elisa no seriado "Malu Mulher" (Globo), entre 1979/80. Vivendo a filha de Regina Duarte, encontrou fama e reconhecimento. De 1981 a 1990, foram várias as tramas em que Narjara Turetta atuou, principalmente na TV Globo. Entre elas: “Baila Comigo”, em 81; “Amor com Amor se Paga”, em 84; “Selva de Pedra”, em 86; “Direito de Amar”, em 87 e “O Salvador da Pátria”, em 89. Depois de ter participado de “Gente Fina”, em 1990, não encontrou mais oportunidades nem convites na televisão. Só em 2000 conseguiu voltar à vida artística, participando da novela "Vidas Cruzadas", na Rede Record.
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Com o término desta novela, novamente não houve nenhum outro convite. Quando os trabalhos começaram ficar escassos, Narjara resolveu dar aulas de interpretação na Oficina Casa com Arte. Em 2002, ainda com dificuldades financeiras para se manter, ela não esconde que amargou uma rotina de lágrimas, suor e sofrimento. Tudo muito diferente da vida de glamour e sofisticação sempre associada às estrelas da TV. Desempregada, Narjara aprendeu a lutar contra o próprio orgulho. "Escrevia cartas para os atores pedindo dinheiro. Comida, pedia aos vizinhos. E roupa pegava na igreja", confessa ela, que odiava ser chamada de ex-atriz. "Estava sem emprego, mas era atriz", orgulha-se. Para sobreviver, ganhou um carrinho de água-de-coco, que pôs na frente de seu prédio, em Copacabana, Rio. "Comecei a vender coco no dia 8 de abril de 2002. Não esqueço porque foi o dia que mais senti vergonha na vida. Sentia até dor no corpo".


Nas eleições de 2004, candidatou-se a vereadora, sem sucesso, pelo PSDB. A volta de Narjara à vida artística aconteceu em 2006 com o convite de Manoel Carlos e Jayme Monjardim para participar da novela “Páginas da Vida” (Rede Globo), no papel de Inesita, a empregada de Tônia (Sônia Braga). Além de trabalhos na TV, Narjara Turetta é atriz de teatro e realiza esporadicamente trabalhos de dublagem. Em 2007, Narjara produziu a peça "A Cigarra e a Formiga". Em 2008, a atriz voltou à TV, participando de um dos episódios do programa "Casos e Acasos" (Globo). Paralelamente aos trabalhos esporádicos na telinha, Narjara ministra palestras sobre motivação e superação de desafios.


A história triste dessa excelente atriz faz-me lembrar de outras trajetórias que nem de longe lembram o glamour vivido por atores globais. Alguém se lembra do Pixote? Fernando Ramos da Silva, menor da periferia de São Paulo, virou ator de cinema e teve fim trágico. Fernando foi o personagem principal no filme “Pixote, a Lei do Mais Fraco”. Graças à sua interpretação inesquecível, o filme de Hector Babenco, inspirado em fatos reais, foi um sucesso mundial e recebeu vários prêmios internacionais. Fernando era ator “natural”, aprendeu sozinho, sem escola, quase por milagre. Além de trabalhar com Babenco, fez uma ponta em “Eles não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman, e na novela “O Amor é Nosso”, da Globo. Nunca foi bem aceito no meio artístico; analfabeto, tinha dificuldade em decorar as falas. Quando ficou sem trabalho voltou para a favela em Diadema, onde levantava uns trocados com pequenos furtos, até ser morto, varado de balas pela PM.

Como lidar com o esquecimento após uma fama repentina? Como sobreviver sem os louros que uma carreira de visibilidade lhes proporciona? Hoje muito se fala sobre a menina Maísa, que me parece totalmente fora de um contexto infantil, explorada pela mídia de forma violenta. Depois de chorar duas vezes na TV, a menina pode ser tirada do ar. O Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Paulo vai investigar se houve violência psicológica com a apresentadora mirim do SBT, que chorou duas vezes, ao vivo, no programa dominical de Sílvio Santos.

Na primeira vez, o apresentador assustou a menina com uma criança vestida de zumbi. Ela gritou no ar e saiu correndo do palco. Já no último domingo (17), ela correu depois de ser provocada por Sílvio e bateu a cabeça em uma câmera, chorando mais. Se for constatado que ela passou por violência psicológica, pelo Conselho, será feita uma denúncia ao Ministério Público Federal.

E eu me pergunto? Onde estão os pais dessa menina, que cresce sem nenhuma noção de limite ou respeito aos mais velhos, incentivada pelo apresentador, que, em nome da audiência, permite que ela faça o que bem entende? Qual será o futuro de Maísa, caso venha a cair no esquecimento como Narjara, Pixote e tantos outros?

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